Manifesto
Auto Móvel
O modelo desenvolvimentista adotado pelo Brasil alterou a forma e comportamento dos cidadãos de
maneira substanciosa de modo que o reflexo dessa escolha e o acúmulo
material trouxeram a quase impossibilidade de viver nas metrópoles
brasileiras. O carro é o símbolo e produto do processo que devemos
transformar, usando-o como meio para nos por a pensar sobre sua
viabilidade, simbologia e valor de uso, fazendo-o como ponto de
questionamento e objeto da práxis.
O Manifesto Auto Móvel vem para
questionar esse objeto que perdeu sua capacidade de locomoção quando,
pela irracionalidade econômica, produziram-se milhões de veículos que
superlotam e congestionam nossas vias de acesso poluindo nosso meio
ambiente e matando milhares de vidas todos os anos em nosso território.
Por que continuar com essa indústria? Por que produzir mais carros se
não há mais espaço para se locomoverem? Por que continuar a construir
essas máquinas que matam e poluem? Por que continuar quando o principal
motivo de sua existência perdeu-se na cobiça e acefalia dos
industriários transnacionais do século passado?
O Manifesto Auto
Móvel nasceu a partir da irracionalidade moderna travestida de cobiça e
poluição e tem, como principal foco, o questionamento sobre o objeto
carro. É a moral urbana que questionamos quando cada individuo sustenta e
legitima o meio de transporte que entra em colapso nesse começo do
século por conta da crise mundial financeira, pela inviabilidade
locomotiva que há muito esta longe de ser resolvida dentro de nossas
cidades e metrópoles e, principalmente, pelo modelo insustentável
ambientalmente.
Desde sua invenção o processo de produção causou
conseqüências drásticas ao meio ambiente e ao homem. Ao longo de sua
historia o homem esteve subalterno ao objeto. Do modelo fordista de
produção ou taylorismo de gerenciamento ambos aprisionaram o homem à
máquina.
Queremos aqui, além da radical oposição ao objeto, propor
alternativas que possibilitem a melhoria de vida de todos os munícipes e
metropolitanos. Romper com a indústria automobilística nesse período de
crise financeira mundial na qual vemos as maiores e mais importantes
montadoras ruir e sucessivamente consumir bilhões de dólares para não
chegar ao seu fim. É assumir e ter a honestidade para com o povo de que o
projeto adotado pelo Brasil nas décadas de 50/60 não deu certo, não nos
melhorou a vida.
Construir um país para carros não nos trouxe o tão
famigerado progresso. O que fizemos foi gastar grande riqueza em
subsídios para que empresas construíssem aqui montadoras que sempre
exploraram a mão de obra de nossos trabalhadores e remetessem toda a
riqueza para seus paises de origem. O que fizemos foi construir milhares
de quilômetros de asfalto, ignorando sumariamente outros meios de
transportes, e agredir o meio ambiente por onde quer que passasse um
carro. O Brasil é um país cheio de rios, todos sabemos. Sabemos também
que a ferrovia é um ótimo meio de transporte, mas optamos por um modelo
calcado em interesses políticos e econômicos e todos nós pagamos o preço
ainda hoje. Hoje também vemos seu colapso. Sua incapacidade de
locomoção quando analisado custo beneficio e comparado com outros meios
de transporte. Nossa comida está cada vez mais cara.
Quando
aceitamos esse modelo estávamos todos embebidos em uma estética
falaciosa que fora introduzida como principio do que é bom e moderno
pelos nossos próprios artistas, intelectuais, jornalistas, juristas e,
por fim, políticos. A conseqüência e desdobramento ocorreram nas décadas
seguintes. Os problemas restam a nós, de hoje. Pagamos muito caro por
uma mentira contada enquanto nos entupiam de bossa nova e televisão.
Disseram que tudo aquilo era o progresso, que era para a melhoria do
país, do povo. Pegaram todo nosso dinheiro, o que tínhamos e o que não
tínhamos. Contraíram dividas que duas, três gerações de jovens
sacrificaram-se para pagar. Construíram, também sob ditadura, linhas que
rasgaram nosso chão com o mais caro material para que alguns, os que
possuíam o carro, se locomovessem de um ponto ao outro. Diziam que
aquilo era liberdade, era para a liberdade. Que liberdade? De quem?
Enquanto uma massa de homens e mulheres eram deslocados para o
centro-oeste do país para construir a nova capital, a maravilha moderna
chegava e era consumida por poucos. Com sentido único de controle. Como
até hoje em dia. Aliado a isso, nossa NÃO distribuição de renda alimenta
ainda mais esse sonho mentiroso de ter liberdade quando comprado um
carro. É o motor que gira a máquina que exclui muitos, para que alguns
possam usufruir de luxuosos bens e conforto.
Nossa proposta vem
quando observado, por exemplo, que o Estado cobra IPVA daquilo que já
foi pago pelo individuo, um imposto para locomoção. O individuo compra o
carro e o Estado o taxa com uma quantia sobre sua posse e em
contrapartida oferece vias satisfatórias para locomoção e segurança.
Isso, ainda que fosse verdade seria injustiça.
Quando observado sob
outra perspectiva, a do individuo proprietário, vemos um ser envaidecido
pelo modelo/marca que conseguiu comprar. Não questionaremos aqui o
acúmulo de tal capital para a aquisição de carros que ultrapassam o
valor de mais de 100 mil dólares, por exemplo. Sabemos todos que isso só
é possível porque em nosso país o Estado é inexistente para políticas
de distribuição de renda. O que levantaremos como questão está na
alienação de consumo quando esse mesmo individuo paga uma maior parte do
valor total do bem em impostos e não tem garantias básicas de
segurança. Criando assim um ciclo catatônico entre ambos. Individuo e
Estado enganam-se e escondem?se atrás de blindados, seja por meio do
material vidro ou pelo panoptismo arquitetônico.
O Manifesto Auto
Móvel vem para promover e fomentar a crise em segurança sobre a real
propriedade privada e questionar o falacioso modelo vigente e a
estrutura da política de transporte para as metrópoles. Queremos algo
que sirva a todos. Não pacotes bilionários para salvar uma economia que
não atende mais as reais exigências da nova sociedade.
Os carros
devem ser públicos assim como todo veículo sobre roda que usa vias
publicas para se locomover. A estatização deve ocorrer para diminuir a
frota e resolver o problema primário de espaço. Não há mais espaço para
carros nessa metrópole São Paulo! Onde estão as arvores? O único
interesse que deveria existir nesse bem é o de locomoção e isso só será
resgatado quando criado o hábito de seu uso coletivo e quebrado o apego
material.
Para que nossas metrópoles não parem instauremos uma nova
relação entre individuo e máquina. O Manifesto Auto Móvel vem para
ajudar nesse processo. A revolução se dará pela relação entre nós e o
objeto. Um carro só serve para nos locomover e assim será. E quando o
principio básico de sua criação é subvertido pelo fetiche, algo está
errado. Interesses individuais não podem se sobrepor aos interesses do
coletivo.
Por isso, buscamos uma saída ao propor uma intervenção
prática diante desta realidade exposta: a pichação de todos os carros
que estiverem em vias públicas com a palavra PÚBLICO e um grande ponto
de interrogação, para começar. Isto na tentativa de instaurar um novo
modelo de transporte e frear o consumo por máquinas que não significam
liberdade, mas o contrário. Nossa estética é urbana e produto de muito
CO2 liberado por 60 anos de poluição irrestrita. Vamos devolver o lixo
em cima de vocês.
Quando o Estado não faz seu papel de regular, nós,
o povo, o faremos e isso chama-se revolução. Por carros estatais, por
carros sustentáveis e, principalmente, por menos carros.
UNIDADE
2022, a regurgitação do moderno
© 2012 Creado por Fernanda Martins.
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