
por Jeff Anderson
"A racionalização arquitetural e urbanística moderna no Brasil gerou
gastos exorbitantes aos cofres públicos, criou o sistema panoptico,
matou a metafísica e é ademocratico."
O manifesto BioUrban é a antítese quanto concepção. É a resistência filosófica e estética da
prática do construir e viver Cidade. É a vida. É a Cidade Viva.
Prédios, ruas, casas e cidades inteiras foram rasgadas com premissas básicas da exclusão, do sentido único capital do qual a construção é parte do processo do lucro das grandes e pequenas construtoras. Exploradoras de mão-de-obra barata, com pouco ou sem nenhuma instrução, de fácil manipulação e, em sua grande maioria, miseráveis intelectual. Assim fazem do trabalhador da construção civil uma peça dentro do jogo para garantir seus altos lucros na construção e venda de casas e apartamentos construídos por essas mãos que ao findar o trabalho não garantem a subsistência ao próximo mês. Esses trabalhadores não ocupam o que constroem, não são detentores da terra onde levantam monstruosos prédios, mas são, talvez, os últimos donos dos meios de produção que pode-se entender como força, sapiência e técnica do construir moradias. É preciso levantar-se contra a hegemonia da divisão do trabalho dentro das empresas que disputam licitações publicas para grandes obras no país. O trabalhador da construção civil precisa refletir sobre a questão e entender que sem suas mãos, técnica e sapiência não existem obras. As mãos, a técnica e a sapiência formam a trindade, assim como o Pai, o Filho e Espírito Santo. Dividir o trabalho dentro de uma construção civil faz com que o os trabalhadores não tenham consciência de todo o processo da construção. E isso é a maneira que as empresas fazem para controlar cada trabalhador e ocupa-lo somente com a função que fora designada no contrato. Dessa forma seu salário é correspondente ao processo que foi contratado para executar. Isso garante controle e baixos salários àqueles que sem suas mãos, técnica e sapiência não existiria um só prédio. Juntos constroem. Juntos partilham a quantia
correspondente do trabalho exercido. Todos são fundamentais. Não existe arquiteto. Não existe engenheiro. Não existe mestre de obras. Não existe pedreiro. Não existe servente. Existe um conjunto de Seres Humanos que constroem a garantia da Vida Humana.
Um servente quando faz a massa, pega o bloco e passa para o pedreiro que por sua vez levanta paredes e estruturas inteiras que vieram das palavras do mestre de obra que se fizeram entendidas pela boca do engenheiro que obteve a concepção filosófica do arquiteto e juntos constroem o sistema de aprisionamento de todos. Quem disse que um servente não pensa? Quem disse que um Arquiteto não sabe levantar paredes? Quem disse foi a empresa que no processo de legitimação de cada ordem funcional entendeu o salário correspondente de cada executor. Assim, o primeiro apartheid acontece para o sistema de alienação ocorrer. Todos são presas fáceis quando estimulam e legitimam esse sistema. Subverter a ordem é a garantia de mudança. Um servente precisa pensar e construir sua própria casa. Um arquiteto precisa quebrar algumas paredes e assentar um novo chão.
O processo modernista mentiu. Quando fez dos arquitetos e engenheiros responsáveis pela multiplicação de conhecimento que o sistema da nova ordem impunha àqueles que precisavam aprender para garantir o emprego; iludiu de maneira despótica e apenas aumentou ainda mais a alienação com um novo processo de técnica. Construindo assim prédios, casas e Brasília, por exemplo.
A cidade de Brasília é o símbolo que devemos exterminar e lá levantar um novo tipo de arquitetura para uma nova ocupação. Brasília deverá ser a cidade da Universidade do Brasil, universidade publica e gratuita. Todos os prédios usados para abrigar ministros e senadores e os demais parasitas do governo deverão dar lugar aos estudantes, professores e funcionários da nova Universidade. Cada novo morador deverá intervir em sua moradia como bem quiser. Todos deverão intervir na cidade de modo que a transfigure em algo possível de haver vida para além das diretrizes que o plano diretor racionalizou. É a expressão individual com o trabalho coletivo transformando a cidade fria e sem vida em algo majestoso e realmente brasileiro. Todos os políticos deverão evacuar Brasília. O Estado brasileiro deverá passar por uma revolução política que tem a Desconcentração do Poder Físico o alvo primordial e fundamental da nova maneira de pensar e fazer política no país. Cada ministério ocupará a porção de terra mais pobre socialmente do país. O Senado deverá ocupar o Vale do Jequitinhonha. O Palácio da Justiça deverá ocupará a favela da Rocinha. A câmara dos deputados o Jardim Ângela. A Granja do Torto deverá ocupar a cidade de Arapiraca.
Brasília hoje foi construída para tirar o poder das mãos do povo. Por isso a capital do pais está bem longe do centro populacional. Foi construída no centro do país, em um lugar inóspito e quase vazio quando comparado com São Paulo, Minas ou Rio de Janeiro. Quem já foi a Brasília? Imagina se o lugar que fosse votado aquela lei que nos afeta diretamente fosse em algum bairro de São Paulo. Você iria ate lá? Brasília nos tira essa possibilidade de participação política, porque esta há mais de mil quilômetros longe. Ela foi construída sob o pretexto de defesa do país, em uma época que já havia mísseis, portanto, não importa se ela estava no litoral ou em qualquer outra parte do planeta. Caso as potencias da época quisessem destruí-la seria feito por mísseis.
Lembro-me que quando estava na quinta serie o professor dizia que a capital foi construída no centro do país para ser protegida de invasões. Quanta mentira! Ela foi construída para não ter acesso. Ela foi mudada do Rio de Janeiro em uma época bastante difícil de se governar, pois o povo fazia pressão política exigindo melhorias, resultados. A situação no começo do século passado era bastante conflituosa na cidade do Rio de Janeiro tal qual vemos hoje. Neste inicio do século XXI. Se a capital do país estivesse ainda no Rio a cidade estaria passando por tantas dificuldades como as que enfrentam hoje. Ou o Estado brasileiro já teria caído sob um golpe do poder paralelo Comando Vermelho e Primeiro comando da Capital? Já pensou se os dois poderes paralelos se unificassem?
Com a construção de Brasília no centro do país, os governantes puderam controlar melhor a população que não parava de crescer nas décadas de 70, 80 e 90. Eram muitos novos brasileiros agora observados pela nova capital que ficava no centro do território brasileiro. Observando sem ser vista. Isso é o panoptico. É olhar sem ser visto. Uma espécie de Big Brother, porém na arquitetura. Eles ficam lá e nós, o povo, ficamos aqui. Se um de nós, povo, quiséssemos protestar contra alguma coisa deveria, primeiro, ter dinheiro para chegar até lá.
Isso é democracia?
Democracia não é somente ter o direito de votar. Democracia é opinar sobre a vida política do Brasil. Brasília custou muito ao país. Muito dinheiro que poderia ter sido destinado para outras obras como o saneamento básico que ainda não temos por completo. Construímos um monstro moderno vindo de um modelo francês em nosso solo e pagamos com o dinheiro da nossa saúde básica. Queremos fazer a mesma coisa com o PAC no Morro do Alemão, Cantagalo e Rocinha? Vamos gastar mais de um bilhão para desalojar moradores dessas áreas em
um projeto que nem eu, nem você nem sequer teve acesso para saber como e o que vai ser de fato construído?
BioUrban é a Cidade Viva.
Construir BioUrban é construir com as próprias mãos da comunidade. É fazer aquilo que a comunidade aprova. É usar materiais sustentáveis. É perceber e cuidar do meio ambiente. BioUrban é a liberdade de construir em qualquer espaço do povo. É a idéia de que todos e qualquer um tem o direito a moradia digna construídas por suas próprias mãos. É ter direito a janela. É desconcentração de renda através da política que faremos com o ocupar do espaço publico. BioUrban é a comunicação entre todos da comunidade, é a integração, harmonia e sociabilidade que construiremos juntos. BioUrban é trabalho. É perceber o espaço publico como extensão do próprio lar. BioUrban é verde. BioUrban é a vontade de mudar a historia. BioUrban somos nós.
¡Necesitas ser un miembro de RAIA | Red Audiovisual Iberoamericana para añadir comentarios!
Participar en RAIA | Red Audiovisual Iberoamericana